
Cartografia visual das viajeras latino-americanas
Ester Corrêa
2022
Mochilar é uma prática e um estilo de viajar na qual os deslocamentos são marcados pela apropriação de símbolos e valores, formando subjetividades singulares que circulam pelas experiências de viajantes de diferentes perfis, origens e pertencimento étnico-racial. As mulheres formam um grupo de viajantes que tem se apropriado desse estilo de viagem, de diferentes maneiras. Objetivo montar um álbum de viagens composto pela experiência de mulheres viajantes latinoamericanas que viajam de mochila, a partir do material obtido em pesquisa antropológica, para traçar uma cartografia do movimento das mulheres. Utilizo a técnica artesanal de cianotipia para dar materialidade às fotografias viajantes.
Explorei a relação entre mulheres e as estradas latino-americanas, na tese de doutorado, resultado de uma experiência de pesquisa que chamei de mochilão etnográfico - 2019/2022. Esse material permitiu traçar uma cartografia visual do movimento das viajantes latino-americanas. Acredito que aquilo se produz por meio da experiência da viagem é uma forma de contar a viagem e de produzir uma narrativa de si, são produtos da experiência na estrada. Na experiência viajante as fotos são obras que constituem o inventário da experiência vivida. Registrar a experiência da viagem é uma prática que acompanha a expectativa de viajantes, pois o contar a viagem faz parte da mágica, embora tenha variação em relação à forma. Este trabalho é composto por fotografias que registram essas experiências, foram disponibilizadas desde o acervo pessoal das interlocutoras, e outra parte, é composta pela experiência em campo. O ato de eleger fotografias para compor o trabalho pressupõe um controle de imagem, bem como se mostrou um registro valioso para recuperar os processos de trânsito e as interações com os lugares. Produzir conhecimento a partir da memória de viagem atribuiu aos deslocamentos de novos sentidos, não apenas de partidas e chegadas, mas localizando a viagem como uma forma de estar e ser no mundo (PEIXOTO, 2015) das viajantes latino-americanas. Os itinerários das interlocutoras permitem perceber a dimensão dos trajetos percorridos, em termos espaciais e também subjetivos.
Equipamentos e Processos: As imagens que compõem este trabalho constituem parte da linguagem, possível de leitura sobre lugares, interesses, formas de viajar que foram obtidas em lócus e também que foram disponibilizadas pelas interlocutoras-viajantes. A partir desse material digital produzi uma série de experimentações visuais. Incentivada pelo diálogo entre arte e antropologia, utilizei a fotografia artesanal por meio da cianotipia: uma técnica de impressão artesanal com a luz do sol em tons azuis. A escolha se deu por motivo estético, mas também como estratégia de atribuir outros sentidos ao fazer artesanal e à experiência das viajantes. A experimentação com a cianotipia consistiu a) manipulação digital das fotos b) transformação em negativos impressos b) preparação química do papel c) exposição e revelação das fotografias em papel canson e d) curadoria e digitalização dos resultados. Esse processo fotográfico criativo uniu o digital e analógico, abrindo possibilidade para “brincar” com as imagens, tanto no plano digital quanto analógico. Algumas das fotografias foram digitalmente manipuladas. As fotografias impressas em cianotipia serão dispostas e agregadas em layout de oito grupos (2/3 fotografias cada grupo) que seguem os rastros de memórias de 10 mulheres.

Ester Corrêa
Doutora em Antropologia Social. Mestra em Antropologia Social (UFPA). Atualmente está como professora temporária vinculada a Facisa/UFRN. Pesquisadora, artista, artesã, fotógrafa e escritora amazônida, integra grupos de pesquisa (GATA/UFPA; GCS/UFRN) e coletivo de arte (Coletiva Feminart). Pesquisa sobre Gênero, Mulheres, Fronteiras, Viagens, Cultura popular e Relações étnico-raciais. Interesso-me especialmente pela perspectiva da Antropologia Feminista, da Antropologia Visual e do Pensamento des/decolonial.















